METANOIA põe o dedo na ferida dos viciados em crack, mas se perde no meio do caminho

metanoia-cartaz_0METANOIA

Direção e Roteiro de Miguel Nagle.

Brasil, Drama, 2015. Duração 01h53. Com Caique Oliveira, Einat Falbel, Caio Blat, Lucas Hornos, Thogun Teixeira, Silvio Guindane e Solange Couto. Classificação: 14 anos.

A infância de Eduardo foi num bairro de periferia da Zona Sul da cidade de São Paulo, em meio a brincadeiras nas ruas e à boa educação dada por sua mãe, Solange (Einat Falbel, em interpretação muito convincente). Um pouco acomodado, ele trabalha por um tempo como entregador de pizza, mas logo deixa o serviço e passa o tempo todo ao lado de um amigo rico (Caio Blat, em participação discreta, mas competente), que rapidamente o influencia a mergulhar de cabeça no universo delirante e auto-destrutivo de drogas mais pesadas, tornando-se assim mais um dos milhares de usuários regulares e dependestes do crack. Eduardo então fica perdido em meio à autodestruição, enquanto sua mãe tenta desesperadamente salvar o filho do vício.

Apesar do clichê “pessoa pobre e humilde que sofre com más influências de gente mais rica”, a estória é bem contada em seu início, principalmente porque se vale de corajosas cenas rodadas em plena região da cracolândia, no centro de São Paulo, entre o final de 2012 e o início de 2013, escancarando de maneira dura, mas muito realista, o retrato deprimente da dependência coletiva do crack.

metanoia3O roteiro foi escrito a quatro mãos pelo diretor Miguel Nagle e pelo protagonista Caique Oliveira (ator vindo do “teatro cristão” e pertencente à Cia. Jeová Nissi). Infelizmente, a estória escorrega um pouco após a introdução inicial dos personagens e o estabelecimento de Eduardo como um viciado em crack. Quando o mote deveria ser a catarse coletiva de Eduardo com seus companheiros de vício, evidenciando não só o drama pessoal do protagonista como também a composição daquele cenário lamentável envolvendo dezenas de pessoas diferentes, o roteiro falha justamente ao não integrar as diversas estórias tristes ali contidas, errando ao contá-las com focos particulares demais a cada uma daquelas pessoas viciadas, quase que isolando os dramas individuais uns dos outros.

O grande exemplo disso é que uma das melhores cenas do filme não envolve nenhum dos protagonistas já citados, e sim os personagens de Solange Couto e Sílvio Guindane, que entregam uma cena dramática entre mais uma mãe desesperada e seu filho viciado que, apesar de muito bem realizada, não se relaciona em nada com os outros personagens da estória, a não ser pelo fato de que todos eles perambulam pela cracolândia perdidos em suas tragédias pessoais.

metanoia1Além disso, do meio para a frente o filme muda de aspecto, deixando de retratar fielmente o quadro dantesco envolvendo os viciados em drogas para, de maneira súbita e inexplicável, encaminhar a resolução da trama para “algo superior”, sedimentada principalmente em aspectos religiosos, o que infelizmente joga contra o filme, deixando no ar a sensação de que adotou-se uma solução fácil e conveniente para todos os conflitos dos personagens (o problema não é adotar o viés religioso em si, mas sim utilizá-lo de maneira simplória e mal-desenvolvida).

Claro que Metanoia tem o evidente mérito de colocar o dedo na ferida do mundo dos viciados em drogas, de maneira cruel e contundente, portanto o filme vale pela intenção e também pela fidelidade de sua execução realista. Nagle demonstrou capacidade de direção, mas precisa aperfeiçoar a estrutura de seus futuros roteiros, evitando o erro de não explorar como poderia todas as possibilidades de temas complexos dramaticamente, como é o vício em drogas pesadas. Segundo a Europa Filmes, distribuidora do longa no Brasil, parte da bilheteria do filme será destinada à construção de uma clínica de tratamento de dependentes químicos.


 

Confira abaixo o trailer oficial do filme METANOIA:

 

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=PNgNDT5efdg]

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