Novo filme de Cameron Crowe, “Sob o mesmo céu” estréia acusado de ter “elenco branco”

aloha-poster2SOB O MESMO CÉU
(Aloha)

Direção de Cameron Crowe.

EUA, 2015, Comédia / Romance, 01h45. Com Bradley Cooper, Emma Stone, Rachel McAdams, Bill Murray, John Crasinski, Danny McBride e Alec Baldwin. Classificação: 12 anos.

Aloha” é o título original desta comédia romântica (ambientada no Havaí), que chega aos cinemas brasileiros nesse final de semana com um histórico de ter sofrido intenso bombardeio externo antes de sua estréia. Primeiro porque este foi um daqueles filmes vítimas do vazamento de informações da Sony Pictures, feito por hackers asiáticos no final do ano passado – o filme foi alvo de críticas negativas feitas pelos executivos da Sony, que mostraram sua insatisfação em e-mails que acabaram vazados publicamente. Além disso, dias antes de estrear nos EUA, há cerca de duas semanas atrás, o filme foi severamente criticado por predominantemente ter um elenco “branco” – não há atores negros no filme, apesar de trazer no roteiro elementos de pano-de-fundo como o exército norte-americano, por exemplo.

Bem, o fato é que os produtores da Sony Pictures pareciam não estar muito errados. O elenco de bons nomes aqui parece preguiçoso e mal dirigido. O casal protagonista, por exemplo, não tem química alguma: Bradley Cooper atua no piloto automático como Brian, um homem insatisfeito com os rumos que sua vida toma – ele perdeu a mulher que ama (Rachel McAdams) e ainda precisa lidar com o fato de deixar o exército (em razão da crise nos EUA de 2008) e ingressar no setor privado.

Brian trabalha para um milionário excêntrico (vivido por Bill Murray), que lhe envia ao Havaí em uma missão polêmica: a empresa em que trabalha está prestes a quebrar um tratado mundial e colocar uma ogiva nuclear em um satélite que está para ser lançado. Quietão e sossegado (até demais), Brian é o extremo oposto de sua colega de trabalho, a verborrágica Allison (Emma Stone), com quem também acaba se envolvendo.

Bill Murray em cena de ALOHA
Bill Murray em cena de ALOHA

Como ocorre em quase todos os filmes que dirige, Cameron Crowe também é roteirista do longa (ele já foi indicado duas vezes ao Oscar de roteiro, uma por Jerry Maguire – A Grande Virada (1996) e outra que acabou vencendo por Quase Famosos (2000). Aqui, seu roteiro é propositalmente cheio de diálogos rápidos e desconexos. Crowe parece inicialmente abordar uma questão relevante na atual era da internet, onde toda a comunicação parece ser rápida e descartável: a falta de diálogos sinceros e consistentes entre as pessoas.

No longa, ninguém fala (ou consegue falar) exatamente o que quer dizer, o que resulta em relações incompletas entre os personagens – quase tudo acaba ficando nas entrelinhas, em vez de ser dito claramente. Mas será que estamos mesmo tão solitários assim no mundo? Ou bastaria estendermos as mãos em direção aos outros para encontrarmos pessoas dispostas a dividir conosco todos esses sentimentos e idéias que acabam represados?

Apesar dessa boa intenção ao propor reflexões a respeito do atual comportamento das pessoas, Crowe falha ao utilizar personagens estereotipados demais, que “facilitam” de maneira muito conveniente a tarefa do roteiro em contar a estória dessa maneira – em vez de utilizar para isso pessoas mais “comuns” à realidade que todos nós vivemos no cotidiano. Assim, personagens como a moça jovem que quer se provar competente em um ramo predominantemente masculino (Stone), a esposa sempre divertida e disposta (McAdams) ou o empresário ganancioso de Bill Murray acabam por reduzir as pretensões de Crowe a algo que conforme a estória avança, soa cada vez mais falso e forçado.

Bradley Cooper e Alec Baldwin
Bradley Cooper e Alec Baldwin

Além disso, o filme cai numa armadilha criada por ele mesmo, pois o fato de tudo acontecer propositalmente de forma muito rápida, em vez de escancarar o modo descartável como as pessoas se relacionam, aqui se torna um recurso mal-utilizado para os propósitos do roteiro e acaba fazendo com que os personagens sejam mal desenvolvidos e tudo fique confuso e irregular.

O melhor exemplo é a transformação de Brian, de um cara chato para um cara legal, sem que percebamos isso acontecendo com o desenrolar da estória. Isso sem contar as questões políticas e econômicas levantadas inicialmente e que são mal exploradas (lembram-se da questão da ogiva nuclear colocada em um satélite? pois é, o roteirista parece que também esqueceu).

Para superar o pessimismo antes da estréia, inegavelmente o longa teria que se provar um filmaço, o que nem de longe acontece aqui – apesar da cena final belíssima com o protagonista acertando suas contas com o passado. Fato é que o filme vem sendo um fracasso nas bilheterias – “Aloha” estreou nos EUA há cerca de quinze dias e nem chegou ainda a 20 milhões de dólares – mesmo o filme tendo como chamariz um protagonista (Bradley Cooper) que simplesmente foi o campeão de bilheteria nos EUA no ano passado com “Sniper Americano”.


Veja abaixo o trailer do filme “Sob o mesmo céu” (Aloha)

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=ShetvTxA1Gw&w=560&h=315]

 

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