A CASA DOS ESPÍRITOS traz elenco grandioso desperdiçado num roteiro repleto de clichês

A Casa dos Espíritos

Um europeu dirigindo um elenco predominantemente dos EUA, num filme baseado numa estória real ocorrida num país latino-americano. Será que essa combinação deu certo no cinema? Não muito: ficou a sensação que A Casa dos Espíritos poderia ter sido muito melhor.

Tanto o roteiro como a direção do filme são de Bille August, renomado diretor à época por já ter ganho duas Palmas de Ouro no Festival de Cannes. Porém o fato de um dinamarquês trazer para o cinema uma estória tão particular de um país da América do Sul (no caso, o Chile) acabou saltando aos olhos. O filme só não virou uma catástrofe porque contou com um elenco cheio de estrelas e também porque a estória contada, por si só, é suficientemente boa.

Roteiro adaptado de um “best-seller” chileno

Isabel Allende
ISABEL ALLENDE, autora do livro

O roteiro foi adaptado do livro “A Casa dos Espíritos”, da escritora chilena Isabel Allende. Ela é sobrinha do ex-presidente chileno Salvador Allende, assassinado pelos militares durante o golpe de 1973.  A estória basicamente gira em torno da vida de Esteban Trueba (Jeremy Irons) que compra um latifúndio no interior e em duas décadas o transforma numa da maiores fazendas produtivas do país. Só que, para isso, Esteban explora os antigos moradores da fazenda, tornando-os quase como escravos. Até que um dia, o filho de um deles, Pedro Garcia (Antonio Banderas) começa a insuflar os trabalhadores do local contra esse estado de coisas.

Temos ainda várias tramas paralelas. O título “A Casa dos Espíritos” se deve aos poderes sensitivos de Clara (Meryl Streep), que é capaz de prever acontecimentos terríveis antes que ocorram. Clara é apaixonada por Esteban desde criança, e se casa com ele quando este já é um rico fazendeiro. Ambos vão morar na fazenda e levam consigo a irmã de Esteban, a sisuda Ferula (excepcionalmente interpretada por Glenn Close). Ela tem uma relação conturbada com Esteban, ainda mais quando este começa a desconfiar que a irmã e sua esposa tem um envolvimento lésbico.

A Casa dos Espíritos
As estrelas GLENN CLOSE e MERYL STREEP

Do casamento entre Esteban e Clara nasce Blanca (Winona Ryder, apenas razoável), que quando moça vai se apaixonar justamente pelo personagem de Banderas. Todas essas tramas se entrelaçam em meio a um crescente sentimento de revolta, mostrado primeiro apenas entre os operários da fazenda. Depois, com o passar do tempo os trabalhadores de todo país são tomados pelo espírito revolucionário. Enquanto isso, Esteban Trueba é convidado a entrar na política pelos corredores da direita, ou seja: tomando um caminho oposto aos ideais socialistas da filha, por exemplo.

Estória real perde força com clichês estilo “novelão”

Como se vê, tudo isso pode ser facilmente contado através de clichês intermináveis, e infelizmente é exatamente isso que ocorre. Aliás, o roteiro lança mão de outros clichês acessórios, que nada acrescentam ao filme, como a morte dos pais de Clara, em que se mostra na tela a cabeça da mãe dela sendo segurada por um homem, numa cena totalmente sem sentido, em que fica até difícil dizer se é cômica ou trágica. Outro exemplo são as cenas de nudez totalmente desnecessárias, pois nada acrescentam ao roteiro e não tem importância alguma para o desenvolvimento da estória, tornando-se assim gratuitas e de mau gosto.

Jeremy Irons
JEREMY IRONS é Esteban Trueba

Felizmente também há aspectos positivos, méritos principalmente da estória em si (não li o livro, mas dizem que é incomparavelmente melhor que o filme). A forma com que o filho bastardo de Trueba se envolve com sua família é muito bem desenvolvida, e ao final chega até a ser surpreendente. O personagem de Glenn Close, apesar de não ser crucial para o enredo principal, por mérito dela consegue ser um ponto alto do filme, e inclusive ajuda a caracterizar melhor os personagens que a rodeiam. E algumas passagens são muito bem realizadas, como a própria morte de Ferula, numa cena até comovente, além das cenas de tortura de Blanca mais ao final do filme.

Erro gravíssimo mostra falta de respeito com a obra literária

Um gravíssimo erro do roteiro, porém, é deixar de mencionar que estamos ambientados no Chile. O nome do país nunca é citado, e Esteban Trueba se refere ao mesmo sempre como “my country” ou “our country” (meu / nosso país). Isso ficou ridículo, quase patético! Além do mais, nomes importantes da estória do golpe militar chileno, como do próprio Salvador Allende e do ditador Augusto Pinochet, sequer são mencionados. Ou seja, quiseram contar uma estória particular de um país de uma forma genérica, como se pudesse se aplicar a uma republiqueta qualquer, de qualquer lugar do mundo. Isso deixou o filme sem identidade, e com certeza essa atitude descolou demais o filme do livro, tornando-o totalmente caricato principalmente para os leitores da obra de Isabel Allende.

O saldo geral é positivo. A Casa dos Espíritos é um bom filme, mas principalmente para quem leu o livro, a sensação que fica é que poderia ser muito mais inesquecível. Prova disso é que não é um filme assim tão famoso, apesar do elenco grandioso que possui.

Nota CINEMAIMERI – 8.0 ***


Veja abaixo o trailer original de A CASA DOS ESPÍRITOS (legendado):

Trailer: A Casa dos Espíritos - Ed. Definitiva

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